“Saúde é um direito de todos e um dever do Estado”. Inspiradas nesse direito fundamental, enfermeiras habilitadas germinaram a enfermagem obstétrica e a enfermagem neonatal do Rio de Janeiro entre as décadas de 70 e 80, com o propósito de melhorar a oferta de saúde das mulheres e dos recém-nascidos. Para tanto, foi construído um modelo de cuidado da Enfermagem amparado em bases científicas internacionais e nacionais, diretrizes de humanização e direitos humanos.
Por seguir na contramão da mercantilização da saúde, por abalar o poder da hegemonia de diferentes categorias profissionais da saúde e por operar numa lógica de equipes horizontais, integradas e com foco em plano de cuidado centrado na pessoa, esta política de saúde da Enfermagem sofreu e sofre diversas violências simbólicas. O modelo de cuidado da Enfermagem, mesmo reconhecidamente capaz de reduzir a mortalidade materna e neonatal e de aumentar o índice de satisfação dos usuários envolvidos, enfrenta entraves à atuação profissional que permanecem há décadas como desafios a serem superados.
Todo esse movimento histórico de construção de uma identidade profissional foi possível porque nós, Enfermeiras Obstétricas e Neonatais, éramos força de trabalho do Estado e, sob a segurança de servir à população e não ao capital, fizemos parte da construção do SUS, nada menos do que o maior sistema público de saúde do mundo. Hoje a luta é por todas as pessoas que gestam, bebês e famílias, as que são assistidas e as que assistem, atendendo a todas as suas particularidades, respeitando suas escolhas, suas crenças e as características que as tornam únicas.
É justamente por sermos uma categoria forjada nesta luta que hoje estamos somando esforços em defesa da reforma obstétrica no estado do Rio de Janeiro. O objetivo não é apenas reorganizar serviços ou modificar fluxos, mas reposicionar o parto e o nascimento sob a lógica da evidência científica, da humanização e da segurança do paciente. As evidências apontam que o suporte contínuo especializado à mulher durante o pré-natal, parto e nascimento melhora a experiência materna e reduz cesarianas e partos instrumentais, com impactos diretos na morbimortalidade materna e neonatal.
Como parte dos nossos compromissos, nos dias 15, 16 e 17 de julho de 2026, reuniram-se na UERJ profissionais e estudantes de diversos níveis de formação da Enfermagem, Enfermagem Obstétrica e Neonatal. O IX ENEON teve como objetivo discutir nosso papel social, político, científico e profissional na promoção dos direitos humanos e dos direitos sexuais e reprodutivos. Foram abordados temas como: violações aos direitos das mulheres e dos recém-nascidos; segurança no cenário do cuidado obstétrico e neonatal; trabalho em equipe e competência para o cuidado no caminho da formação; integração entre ensino e serviços de saúde; e os meios para ampliação de redes institucionais em prol da mudança do modelo de cuidado vigente.
Considerando o nosso capital social, intelectual e cultural, único capaz de romper com as estratégias de desmonte do SUS, saímos deste encontro com a certeza de que é hora de estarmos na luta. Nossa força está na ciência e na arte da enfermagem, que, por ser prática, relacional e tecnológica, incrementa a segurança e melhores experiências de pré-natal, parto e nascimento, além de despertar a autonomia das pessoas, promovendo histórias únicas e dignas, independentemente dos marcadores sociais que as atravessam.
Quando há o investimento devido, somos capazes de promover a vinculação com usuário e território, aumentando a adesão aos serviços, sendo multiplicadores de boas práticas e alcançando a tão necessária confiança para a construção de letramento e autonomia em saúde nos diferentes ciclos de vida, de forma transdisciplinar e intersetorial. Somos formadas para o cuidado transversal a todas as fases da vida e, para isso, nossa revolução será não-violenta!